O que estamos escrevendo em nossas folhas de papel?

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Edição n°16

Por Dr. João Luiz Barboza

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No último dia 28, sábado, em um zoológico nos Estados Unidos, um menino de quatro anos caiu em uma área isolada para gorilas. Um dos animais se apoderou da criança e a arrastava por uma lâmina d’água no cativeiro, parando de quando em quando, causando pânico e apreensão àqueles que observavam a cena. O animal, que tinha 17 anos e pesava 181 quilos, foi sacrificado porque colocava em risco o garotinho. A Criança foi resgatada sem ferimentos graves.

No mesmo sábado, dia 28, no Japão, um menino de sete anos que viajava de carro com os pais e uma irmã mais velha foi castigado, sendo obrigado a descer do auto e permanecer sozinho à beira de uma estrada que corta um bosque. Após percorrer certa distância a família retornou, porém o garoto não estava mais no local. Seis dias depois o garotinho foi encontrado em uma área de treinamento militar a cerca de 5 quilômetros do local onde foi abandonado, provavelmente sem ter ingerido qualquer alimento, além de água. Felizmente, as notícias dão conta de que ele passa bem.

Na quinta-feira, dia 2, em São Paulo, dois meninos, um de dez e outro de onze anos, pularam o muro de um prédio e furtaram um carro, saindo normalmente pelo portão, pois o porteiro teria pensado tratar-se de moradores. Após rodarem por cerca de 300 metros colidiram com um ônibus e um caminhão. A abordagem da polícia resultou na morte do garoto de 10 anos, que dirigia o veículo e teria atirado contra os policiais, e a apreensão do garoto de 11 anos, que foi devolvido à família.

Qual a razão para se referir a estas três notícias que não representam novidades? O que têm elas em comum? Elas têm em comum o fato de exporem como vítimas crianças que deveriam estar recebendo proteção, carinho, educação e orientação dos seus pais ou responsáveis ao invés de estarem sujeitas ao descuido e à delinquência precoce que as leva ao absurdo do enfrentamento com a polícia.

A sociedade parece estar perdendo a noção de que as crianças não têm desenvolvida a capacidade de autodeterminação. A ingenuidade é própria da infância. Não se pode esperar que uma criança de quatro anos esteja segura em um zoológico a ponto de se a deixar livre e solta; não se pode esperar que um garoto de sete anos saiba interpretar o castigo imposto pelos pais ao deixá-la indefesa à beira de uma estrada; como pode um garoto de dez anos ter aprendido, ainda que precariamente, como guiar um carro ou manusear uma arma de fogo sem a contribuição irresponsável de um adulto?

Deveríamos aprender mais com outros animais que não se descuidam de seus filhotes enquanto estes não se mostrarem totalmente preparados para enfrentar os perigos. É impressionante observar este comportamento em uma frágil ave conhecida como quero-quero, que, geralmente em dupla, acompanha seus filhotes durante todo o período de crescimento até que estejam aptos a se defenderem sozinhos. O homem está perdendo a capacidade de proteger seus filhotes e cada vez mais os deixa entregues à própria sorte.

O pensamento do filósofo inglês John Locke, expoente do Empirismo Britânico, propõe que o ser humano ao nascer é como uma folha de papel em branco, “uma tábula rasa”, a qual vai sendo preenchida com a experiência de vida. A metáfora propõe que a formação de cada ser humano resulta da experiência acumulada durante sua vida. Ao emprestar alguma relevância a esse pensamento pode-se imaginar o futuro que está sendo construído com a experiência de vida que está sendo proporcionada às crianças. É preocupante, pois se assim for não há como evitar que a sociedade se torne vítima dos seus próprios desmazelos.