LIÇÕES DE BICHO

You are currently viewing LIÇÕES DE BICHO

Edição n° 16

Por Adailton Ferreira

licoes-de-bicho

Certa vez um amigo meu me contou, que indo para um dos infinitos subúrbios da cidade, deu de cara com uma cachorra vira-lata estirada no meio do asfalto. Ela estava deitada, bem no meio da rua, e parecia cochilar, imóvel, desatenta. Ele diminuiu em muito a velocidade, enquanto o carro ia se aproximando. Chegando quase em cima, teve que parar: a rua era muito estreita, e não dava de imediato para desviar. A buzina, ele disse que cansou de acionar, e desacreditou, acreditem, quando a cachorra moveu lentamente a cabeça, e vendo o carro a apenas dois metros, olhou para um dos lados, como quem indicasse: “Você é motorista ou não é? Vê se passa por aí; qualquer bom motorista passa!”. Diante dessa atitude, ele engrenou a ré, recuou um pouco, e foi avançando cuidadosamente, evitando atropelar a insolente. Chegou mesmo a passar com um dos pneus sobre a calçada. E a cachorra, ora, ela voltou ao seu cochilo cômodo, enquanto ele tentava se ajeitar novamente no banco. Olhou pelo retrovisor, balançou a cabeça, e não deixou de rir diante da curiosa afronta.

Confessou-me depois, que seguiu pensando sobre esta experiência, e que chegou a uma conclusão inevitável: “Como é proveitosa a sabedoria da velha idade, não é mesmo? Ela, de fato, só permaneceu ali por ser uma cadela anciã, e por saber, por experiência, que a rua era de largura suficiente, apesar de estreita, para eu passar com o meu automóvel. Fosse ela uma cadelinha nova, com certeza se ergueria latindo, a rodear o carro, escandalosa e agressiva. E tem mais, a falta de conforto não atrapalha em nada o limiar da sabedoria, pois se via que era uma cachorra de rua, molambenta”.

E dito isso, ele finalizou a conversa com um estranho conselho, que até hoje acho que serve tanto para mim, como para qualquer um que habite este planeta. Ele disse: “Portanto, meu caro, toda vez que você encontrar uma cachorra vira-lata no meio do seu caminho, não vá logo enxotando-a aos pontapés, ou às vassouradas; lembre-se que, ante a nossa fúria e vontade esmagadora de superioridade, ela pode já ter formada, lá na mente cachorra que toda cadela tem, uma conclusão muito séria sobre nós todos. Seríssima mesmo, pode acreditar!”.