O VERDADEIRO “PÉ DE BREQUE”

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Edição n°43

Por Adailton Ferreiira

 

Tanto no trânsito quanto à margem dele, retardar a passagem de quem vem logo atrás, é motivo para receber, de pronto, a alcunha de “pé de breque”.

Qualquer motorista, em particular, sabe disso.

Do trânsito nada mais pode ser dito, além de que, em certos instantes, todo motorista é um ligeiro “pé de breque”; tamanho é o “vai e vem” ao qual ele se entrega pelas vias congestionadas, ora espremendo outros motoristas para fugir do trânsito, ora cruzando as faixas, apressadamente, fechando a outros automóveis.

Alguns, surpreendentemente, em determinados dias de reflexão _ e talvez tocados pelos ímpetos da prudência_ põem-se a dirigir sem pressa e com correção, e com isso enfileiram carros e carros às suas traseiras, sendo que é de costume escutar, instantaneamente, assim que passam os retardatários:

__Acorda, oh pé de breque!

Ou então:

__Tira a bota do freio, pezão!

No trânsito é assim: um vai brecando em cima do outro, enquanto o pé vai fazendo a vez do juízo. À margem dele, tal apelido, em certas ocasiões, até que se encaixa justo, oportuno, sem haver a necessidade de estar ao volante, o turrão.

A constatação começa aqui; aliás, aqui não; ela teve seu início, o seu ponto de partida, bem dentro de um ônibus urbano, que seguia sentido bairro-centro; dentro dele mais de quarenta e cinco passageiros, onde lá no fundo, no último banco, um homem gritou:

__Oh motorista, é daqui a quantos dias que este busão vai chegar no ponto final?!

O motorista, de início, espantou-se; porém resolveu não dar ouvidos.

O homem continuou:

__Motorista, pé de breque igual a você, eu estou pra ver, acredita?!__ e virava-se para todos: __Nunca vi cara mais lerdo, meu Deus! Para em tudo que é semáfaro!

A viagem prosseguia; o motorista obedecendo às regras básicas do trânsito, e uma infinidade de veículos passando e buzinando-lhe aos ouvidos.

O fulano fustigava:

__Tá vendo, motorista; pé de breque todo mundo conhece! Não tem jeito!…

O bom funcionário não se abalava: atencioso, seguia ao farol amarelo; precavido, obedecia ao farol vermelho; com o verde, ainda olhava para os dois lados, antes de avançar. O passageiro turrão excomungava, resmungava, esbravejava; até que chegou por fim, o seu ponto (para alívio de todos). Não que ninguém estivesse também com pressa; mas do jeito que o aborrecimento estava indo, o medo maior era que o motorista, desconcentrando-se, viesse a reservar para todos nós um só destino: ou seja, acabássemos a viagem dando de cara com um obstáculo, ou pior, abraçados literalmente a um poste.

O ônibus parou para o fulano descer; porém antes de saltar, ele gritou:

__Pé de breque!!__ e pulou. Digo pulou, porque ele não deu o passo do degrau. A consequência foi bisonha: enfiou a cara, a cabeça e o nariz na calçada, e ficou paralisado igualzinho a um boneco. Um filete de sangue escorreu pelo cimento e não houve outro jeito: o motorista desceu do ônibus, o cobrador também, e juntos viraram o corpo do sujeito. A coisa estava realmente feia. O homem só fazia gemer: _Me ajuda, me ajuda…

É, não houve outro jeito; todos desceram _eletricistas, professores, operários, estudantes, bancários, costureiras, açougueiros, porteiros, secretárias, e creio que até advogados. Enfim, todos com seus destinos e obrigações tiveram que descer e ficar à espera de uma próxima condução.

O homem foi colocado cuidadosamente naquele mesmo ônibus e levado às pressas para o hospital das redondezas. A cara dele ficou de dar medo; de dar medo e dó. Estava feia; talvez menos feia que propriamente horrível. E de dar dó _e também, mais ainda, tremendo nó nos nervos_ ficou o trânsito depois dessa tremenda atrapalhação.