Edição n° 43
Por Fabiana Rodovalho Nemet Nº USP: 10141070
A autora confeccionou o presente artigo nas aulas de “História do Urbanismo Contemporâneo” (AUH 240), na FAU-USP- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Professor: Dr. Leandro Medrano
O presente artigo aborda a temática da mobilidade por bicicleta, inserida no contexto de mobilidade urbana em Berlim, contestando a atribuição de causalidade na política de ciclismo e, paralelamente a isto, pontuando os fatos relevantes pelos quais outros lugares tomaram esta política urbana como exemplo. Há duas décadas, a bicicleta figura no espaço urbano de Berlim, a exemplo de Amsterdam e Copenhagen, experimentando o maior renascimento do ciclismo, diga-se de passagem, necessário para a democratização do espaço urbano, amenizando os crescentes problemas de mobilidade urbana que o mundo tem enfrentado. Desta forma, Berlim mobilizou-se para a conscientização necessária de que o transporte urbano sustentável é compensador. As viagens de bicicletas aumentam diariamente, ainda assim, Berlim tem a estrutura certa, com ruas particularmente amplas e espaçosas, as quais permitem tanto a facilidade do uso da bicicleta, como o desenvolvimento de infraestrutura cicloviária. Muito antes de 1990, foi construída na cidade uma extensa rede de infraestrutura para ciclismo, pois, por meio de agendas de planejamento, a construção de ciclovias segregadas para permitir mais espaço aos veículos motorizados havia sido prática corrente a partir de meados da década de 1930, até por volta do final do século.
De acordo com a pesquisa, é necessário incentivar o ciclismo e a caminhada, pois é este um meio de política crucial no impulso para que haja uma forma urbana mais sustentável. De acordo com o artigo, um sistema de transporte urbano sustentável é essencial para que uma cidade possa funcionar corretamente, em especial por haver uma tendência crescente de urbanização e adensamento. Os transportes urbanos representam 40% de todas as emissões de CO2 dos transportes rodoviários e até 70% de outros poluentes, provenientes dos transportes (Comissão Europeia, 2015). Em relação aos congestionamentos urbanos, o transporte urbano sustentável é fundamental não só por diminuir a poluição ambiental e o consumo de energia, mas também para sejam feitos os trajetos particulares e comerciais. Todos os anos, a economia europeia perde cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) por meio do congestionamento (Comissão Europeia, 2011). Por esta razão, as cidades da Europa têm incentivado cada vez mais o ciclismo e as caminhadas – modalidades de deslocamentos que tem desempenhado um papel muito importante nesta transformação.
A atividade governamental de promover o ciclismo pode, portanto, ser entendido como um “programa para a mudança do sistema”, o que representa uma faceta da gestão da “transição” – que diz respeito às tentativas governamentais de longo prazo em aspectos de direção da sociedade (como os regimes de transporte) no sentido de promover futuras formas “mais sustentáveis”. Embora a bicicleta não pode ser considerada uma inovação como tal, numa perspectiva de transição ela é relevante porque o ciclismo atualmente funciona como uma configuração sócio técnica, atendendo inúmeras peculiaridades, socializando as pessoas; humanizando as ruas, enfim, democratizando o espaço público. As mobilidades políticas podem contribuir tanto para a gestão da transição (como uma prática de governança) como para pesquisa de transição com ferramentas analíticas para desafiar e ajudar a selecionar, interpretar e aplicar modelos de política de melhores práticas.
Entrevistados na cidade de Berlim afirmaram que o ciclismo oferece um custo monetário menor em relação a outros modos de transporte, sendo esta uma razão significativa para o aumento do uso de bicicletas. Seria esta a única motivação mais influente para o uso da bicicleta, já que as pessoas naquela região não possuem boas condições financeiras. Ainda assim, não se pode generalizar que a escolha deste meio de transporte se dá tão somente pelo custo baixo. Entretanto, o custo é reconhecido como fator importante na escolha do modo de transporte, tendo em vista que, desde a década de 1970, são cogitadas mudanças econômicas, como influenciar o crescimento do ciclismo na Alemanha.
É fato curioso que metade dos entrevistados compara a velocidade do ciclismo com os modos motorizados para muitas viagens, como uma razão para o uso intenso da bicicleta em Berlim, enfatizando o congestionamento do tráfego, assim como o conforto e a conveniência do uso da bicicleta face ao custo do estacionamento – o que revela que a cidade possui um tráfego caótico. As pessoas em Berlim também estão conscientes quanto aos benefícios ambientais e de saúde, comumente propiciados pelo uso bicicleta – que, por sua vez, também é símbolo de moda e status na cidade desde 2006. Porém, desde 1990, houve um aumento inesperado do ciclismo em Berlim e, segundo os planejadores e consultores, houve baixos níveis de investimento ao longo desse período. Os entrevistados mencionaram uma situação económica restrita, onde as políticas da cidade foram atribuídas a uma falta crônica de fundos públicos – além da falta de vontade política. Todavia, o regime de transporte de Berlim parece estar experimentando uma transição para uma configuração mais sustentável, impulsionado, em grande parte, pelo aumento dos níveis de ciclismo.
As políticas pró-ciclismo de Berlim tem sido reativas, intervindo numa fase em que o ciclismo já estava alterando o sistema de transportes da cidade, bem como da paisagem política e cultural. Por outro lado, Manchester está tentando iniciar o crescimento de uma quota modal significativamente mais baixa, o que exigirá diferentes estratégias. Manchester tem como alvo maior a participação de ciclistas inexperientes e, assim, pretende construir mais ciclovias segregadas com o objetivo de reduzir o ‘medo de andar de bicicleta – ao contrário de Berlim, que removeu infraestruturas segregadas em favor de ciclovias na estrada por bons anos, visto a crescente visibilidade coletiva e a confiança na segurança das pessoas que usam cada vez mais a bicicleta. Por esta razão, os planejadores de transporte de Berlim têm pouca experiência em relação à posição de Manchester, em suma, são situações distintas.
No que tange os pontos abordados, por meio desta pesquisa é possível fazer a seguinte afirmação: como as cidades tentam reorientar drasticamente o desenvolvimento para futuras formas mais sustentáveis, é vital que os planejadores e políticos no Brasil tenham conhecimento suficiente para concretizar essas mudanças, levando em conta que são necessárias mais pesquisas a fim de entender, com maior clareza, como é feita uma política de sustentabilidade urbana, bem como aplicada e gerida, em todos os aspectos.